sexta-feira, 21 de abril de 2017

A Saga das Guitarras Brasileiras - Parte 1

A história dos músicos guitarristas, publicações e fabricantes de Guitarras no Brasil passa por muitas fases desde seu tímido início cercada ainda pela visão erudita e idealista da música clássica sobrecarregada de preconceito que ainda associava e segregava os músicos de maneira geral considerados como "populares" pertencentes à um grupo artístico marginalizado tendo suas obras consideradas como uma música "inferior" e de baixa qualidade, ainda só para ilustrar para relembrar como no início do século XX com a história de Chiquinha Gonzaga. O que para se atingir a etapa de profissionalização como músicos e guitarristas ainda padeceria de muitos percalços durante as décadas posteriores para a sua consolidação no meio musical e até a reviravolta do que se tornou atualmente e por efeito de um mercado de marketing associado a músicos como invólucros de produtos musicais porém ainda mais e de forma central vinculados a ideia de influencia para consumidores do que propriamente artistas reconhecidos por seus trabalhos artísticos-musicais no instrumento, sua música,  são mais conhecidos hoje como "Endorsers", músicos patrocinados por marcas de empresas de instrumentos musicais em publicações e meios destinados para esta finalidade.

Sendo este o cenário de mercado e meio musical pré-histórico nacional até os meados da década de 60 era comum e re-afirmamos ainda sem nenhum tipo de romantismo que expressões do tipo "aquele que leva a vida na flauta", o famigerado "vagabundo" ou ainda o "bicho-grilo" sendo associado indistintamente a um esteriótipo ai já em plena repressão da ditadura na década de 70 a alcunha de elemento "subversivo" e para tanto bastava ter o cabelo cumprido, usar blusa de veludo, calça boca de sino e ainda uma guitarra elétrica nas mãos, muitos anos mais tarde e para "ilustrar" a que ponto se chegava a paranoia naquela época ficou conhecida a história da primeira banda de rock nacional O Módulo 1000 a gravar um disco duplo  em que executivos da gravadora lançam o disco na praça sem saber exatamente de que se tratava de uma banda de rock hard rock instrumental da época muito divergente do "cast" das gravadoras e das rádios populares mais conhecidas daquele momento, porém e apesar de nada terem haver com os grupos de luta-armada da época ou até músicas de protesto mesmo assim foram intimados pelo DOI-CODI (o aparelho de Estado para a repressão) para retirar todos os discos das prateleiras, quando se deram conta que tratava-se de uma censura já era tarde, esta banda e tantas outras e seus músicos chegaram a gravar outros discos mas sempre associados a este tipo de esteriótipo e paranoia vinculados a ideia de subversivos e por tantas outras censuras e barreiras de um modo geral os rockeiros nacionais eram assim tachados e descritos como cabeludos, drogados, mal trapilhos, sujos, mal pagos e ferrados.

A história mais uma vez fez justiça e os reconheceu além do inequívoco talento registrado em suas obras para sempre mas também principalmente pela ousadia, coragem e originalidade que o momento exigia e eles não vacilaram. O cenário musical para o rock e os músicos de forma geral era naquele período tão "barra pesada" que fica difícil hoje em dia imaginar que bandas nacionais como, Mutantes, Patrulha do Espaço, Made in Brazil, Terreno Baldio, Som Nosso de Cada Dia, Casa das Máquinas,Tutti-Fruti, A Chave do Sol, O Terço entre outras surgissem e que seus músicos chegassem onde chegaram gravando discos, levando multidões em festivais de rock nacionais e internacionais, profissionalizando um meio e até o mercado musical através de um estilo e sendo os reais protagonistas que fizeram o início da história do rock brasileiro muito além de Cely Campelo e a Jovem Guarda. Ao final da década de 70 o apogeu não chegaria sem cobrar o seu "ticked", alguns daqueles bravos sobreviventes ainda carregam consigo algumas marcas ou até severas sequelas daquele período como Arnaldo Baptista (ex-Mutantes)*, Lanny Gordin*, Raul Seixas*, só para citar os mais conhecidos que seja pelas drogas, pela tortura e sofrimento da loucura da "psicosfera" do período e pelo desgaste produzido das turnês e por fim as "mil coisas" - como diria Sergey, que acabaram entre outros aspectos marginalizados, discriminados senão segregados socialmente ou até mesmo esquecidos entre os seus próprio familiares. Grandes talentos, grandes artistas que ficaram conhecidos e que alcançaram o apogeu da fama através de seus trabalhos musicais sendo hoje por alguns reconhecidos como verdadeiras obras primas e para ilustrar como a música "Ovelha Negra" de Rita Lee e Tutti Fruti sendo eternizada através do solo genial do guitarrista Luis Carlini.

A breve história do germinal  rock nacional dos anos 70 hoje conhecido como"classic rock" apesar da suma e reconhecida importância como um legado artística-musical-cultural de uma geração e de grande influência para a posteridade, ainda assim continuam hoje não raro a serem retratados e discriminados pela mídia nacional com a inglória alcunha de "geração dos malditos" ou relegados a um segundo plano artístico no estilo devido as condições técnicas da época etc... Em nossa opinião foram bravos heróis muito a frente de seu tempo e não partilhamos da opinião destes pseudo-críticos jornalistas. Muitos deles ainda continuam, após 50 anos, bravamente no front dos palcos como o Made in Brazil, Patrulha do Espaço(fundado pelo Arnaldo Baptista pós Mutantes), Casa das Máquinas, Terreno Baldio e O Terço  entre outros, provando que o Rock Never Die!

Voltando mais precisamente para o universo da guitarra nacional e o alvo deste post apesar destes percalços já despontavam talentos que lançaram propriamente os embriões da profissionalização sendo músicos a princípio mais como violonistas do que propriamente guitarristas em um segundo momento e que eram contratados para tocar ao vivo em estúdios de grandes rádios e gravadoras, guitarristas como Lanny Gordin que gravou e se apresentou como guitarrista de toda uma geração de artistas da MPB durante a década de 60 e 70 com Gal Costa, com Gilberto Gil em Back in Bahia entre várias outras participações, o guitarrista Heraldo do Monte que gravou no Quarteto Novo com o multi instrumental Hermeto Pascoal e em outros discos participando com outros diversos artistas como Elis Regina, Geraldo Vandré, Zimbo Trio em seus discos. Surgiram também outros nomes, também contemporâneos como Pepeu Gomes(Novos Baianos), Luis Carlini(Rita Lee e Tutti Frutti), Robertinho de Recife(Fagner), Armandinho(Guitarra Bahiana conhecida à época como pau-elético), Sérgio Dias(Mutantes) entre outros.

Apesar do ambiente do meio musical ser machista as mulheres na guitarra tiveram sua importante participação com a venerada rainha do rock nacional Rita Lee, vale ressaltar sua primeira guitarrista
Lucinha Turnbull* que participou, logo após Os Mutantes, na formação do Tutti-Fruti a nova banda da Rita Lee nos anos 70. Lucinha foi reconhecida recentemente como sendo a primeira guitarrista do gênero feminino a estrelar por aqui de forma profissional.

Naquele momento o universo da guitarra nacional  já despontava com estas estrelas já pontilhando novos horizontes e direcionando novos rumos e influenciando e sendo incorporados a outros estilos com experimentações que deram certo e conquistaram muitos fãs pelo interior do país, como a fusão com a música sertaneja do que viria a ser o aclamado Rock Rural, do Instrumental com o Terço no clássico álbum Criaturas da Noite, no grupo mineiro de Sá, Rodrix e Guarabira com as clássicas Jesus em uma Moto ou em Hoje ainda é Dia de Rock e os também mineiros do "Clube da Esquina" que incorporavam o som da guitarra em suas melodias.

Diante deste cenário principiava uma insipiente indústria nacional de instrumentos musicais e com a guitarra não era diferente. As guitarras nacionais tinham construções muito inferiores em relação as raras importadas que apareciam por aqui, fabricadas nos EUA e Europa, a importação mesmo que uma possibilidade ainda era uma realidade muito distante pelo menos de boa parte daqueles que queriam um instrumento à altura daqueles disponíveis lá fora. Restava a originalidade e experimentações das garagens de músicos que além de sua arte associados a amigos técnicos em eletrônica produziam também seus próprios instrumentos seguindo a tendência da eletrônica da época em busca do som amplificado e que recorriam a criativas e as vezes "estranhas" senão "bizarras" engenhocas em adaptações a instrumentos musicais para se chegar a um som eletrificado. Algumas destas iniciativas fizeram história como a Guitarra de Sergio Dias do Mutantes e o baixo do Liminha também do Mutantes desenvolvido pelo também criativo e genial irmão de Sérgio e Arnaldo o técnico em eletrônica Cláudio Dias.

Mesmo assim destacaram-se alguns fabricantes pioneiros de guitarras e amplificadores com a rudimentar porém inigualável tecnologia para a amplificação do som  com as peculiaridades próprias em sua reprodução já então naquele momento uma tecnologia muito dominada e difundida sendo até hoje eleita por 10 em cada 10 guitarristas, a tecnologia das válvulas com a magia do som valvulado como, para citar alguns mais conhecidos os amplificadores da Phelpa, os da Giannini que também produzia guitarras e baixos elétricos, os da Del Vecchio guitarras e amplificadores entre outros valendo destacar uma fabricante rudimentar mas com guitarras e baixos mais arrojados instalada na cidade de Bauru no interior do Estado de São Paulo fundada por um imigrante austríaco que a batizou com seu próprio nome a Innsbruck.

Ainda hoje é possível encontrar após uma breve pesquisa em sites "e-bay" algumas destas "raridades" em guitarras, contra-baixos, pedais e principalmente amplificadores daquela época sendo classificados como "vintages" a preços convidativos pois apesar de um início muito tímido e insipiente desta indústria nacional ainda é possível encontrar músicos que fazem uma certa apologia a estes instrumentos talvez pelas madeiras utilizadas em suas construções que tinham muita qualidade - madeira de lei - porém em outras características que vão desde o hardware eletrônico ex. captadores, potenciômetros, tarraxas, escalas, braços sem tensor e visual com um acabamento que realmente deixavam o produto final "som" e tocabilidade muito a desejar frente as produzidas e comercializadas no exterior.

Este cenário a grosso modo permanece em linhas gerais o mesmo durante todo o ufanista período do " Eu te amo meu Brasil" música da banda de rock "Os Incríveis" compôs saudando o regime militar que perdurou de 64 até 85.  Entre leis de protecionismo e corporativismo em defesa de uma indústria nacional esta "zona de conforto" começou a sentir alguma ameaça somente na década de 90 na Era Collor com a fortíssima abertura econômica á importação momento que não "coincide" cronologicamente com a nova geração de cultura pop-rock colorida do início da década de 80 encabeçada com a Blitz e a abertura política daquela década mas estabelece um marco da popularização, da produção e do consumo em massa do Rock no Brasil como um "divisor de águas" a era Rock'n Rio em que a Guitarra torna-se como efeito colateral o signo de influência máxima para uma população produtora do PIB em sua grande e avassaladora maioria até seus 25 anos evidente muito jovem e naturalmente às avessas de tudo o que representava o passado e que influenciou com seus "novos" comportamentos decisivamente as futuras gerações na década de 90 e século XXI.
Entramos para uma breve pausa para a parte 2 de A Saga das Guitarras Brasileiras 

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